Dinalva Heloiza
A disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos entra em uma nova etapa nesta semana com a realização, em 25 de setembro, em Genebra, das primeiras consultas formais entre os dois países na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil questiona judicialmente o caráter arbitrário e unilateral das tarifas adicionais impostas a produtos nacionais por Washington.
O encontro representa um passo
decisivo no mecanismo de solução de controvérsias da organização. O Brasil
apresentou o pedido de consultas em julho, após o governo norte-americano
aplicar sanções sem embasamento técnico multilateral, resultando em sobretaxas
acumuladas que chegam ao patamar desproporcional de até 37,5%. Os Estados
Unidos aceitaram formalmente o pedido brasileiro em agosto.
A iniciativa brasileira na OMC
ocorre paralelamente às negociações bilaterais entre Brasília e Washington. Em
agosto, representantes dos dois governos retomaram o diálogo comercial para
tentar conter os danos econômicos causados pelas tarifas. O governo brasileiro
afirma que permanece aberto à negociação, mas sustenta que as medidas adotadas
unilateralmente pelos Estados Unidos violam abertamente as regras basilares do
comércio multilateral.
A mecânica de uma punição sem critérios claros
A arbitrariedade das novas
tarifas norte-americanas fica evidente na forma como foram formuladas,
fundamentadas em investigações unilaterais baseadas na Seção 301 da legislação
interna dos Estados Unidos — um instrumento historicamente criticado por
atropelar as diretrizes da OMC.
As sanções foram divididas de
forma desarticulada:
- Sobretaxa punitiva: Uma alíquota adicional
de 25% imposta de forma genérica sobre diversos produtos brasileiros.
- Sobretaxa sob pretexto regulatório: Uma
tarifa adicional de 12,5% sob a justificativa de "prevenção ao
trabalho forçado nas cadeias globais" — argumento aplicado ao Brasil
sem a apresentação de provas concretas de violações sistêmicas na produção
exportada.
A cumulatividade dessas medidas é
o ponto mais crítico: quando incidem sobre o mesmo produto, geram uma barreira
protecionista de 37,5%. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a arbitrariedade atinge diretamente 23,1%
de tudo o que o Brasil exporta para os Estados Unidos (com base nos dados
de 2024).
A seleção dos produtos impactados reflete a falta de lógica previsível do protecionismo norte-americano: foram atingidos desde máquinas e equipamentos de alto valor agregado até móveis, confecções, calçados, madeira e óleos essenciais.
Ao mesmo tempo, o fato de 52,7%
das exportações (como café, carne, aeronaves e suco de laranja) terem ficado de
fora dessa rodada específica de sobretaxas expõe ainda mais a natureza
discricionária da medida: os EUA impõem ou isentam produtos conforme interesses
políticos e pressões de lobbies internos, e não por critérios técnicos
transparentes de comércio global.
O questionamento brasileiro e
o vácuo de poder na OMC
Ao recorrer à OMC, o governo
brasileiro busca expor a ilegalidade das medidas norte-americanas, argumentando
que um país não pode atuar como juiz e carrasco do comércio global ao impor
sanções unilaterais.
Contudo, a busca por justiça
comercial enfrenta um obstáculo imposto indiretamente pelos próprios Estados
Unidos: o Órgão de Apelação da OMC permanece paralisado desde 2019 devido ao
bloqueio norte-americano na nomeação de novos juízes. Isso significa que,
embora o Brasil tenha a razão jurídica, os EUA utilizam a paralisia do sistema
que eles mesmos provocaram para manter tarifas arbitrárias rodando por tempo
indeterminado.
O prejuízo real: comércio
bilateral perde força
A imposição dessas barreiras
injustificadas já cobra seu preço na economia real, enfraquecendo a integração
comercial entre as duas nações.
Segundo o MDIC, as exportações
brasileiras para os EUA despencaram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7
bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, a sangria continuou: os
embarques somaram apenas US$ 17,4 bilhões — uma queda vertiginosa de 13% em
relação ao mesmo período do ano anterior.
Com o encarecimento artificial
dos produtos brasileiros no mercado norte-americano (especialmente nos setores
de ferro, aço e petróleo), a fatia dos EUA nas exportações totais do Brasil
caiu de 12,1% para 9,4%. Na prática, a política tarifária arbitrária de
Washington força empresas brasileiras a arcar com custos astronômicos ou a
abandonar o mercado norte-americano em busca de novos parceiros comercialmente
mais previsíveis.
Frentes paralelas de
negociação
Apesar do litígio na OMC, o
Brasil adota uma postura pragmática e mantém o canal bilateral aberto. Um novo
encontro técnico e diplomático está previsto para ocorrer à margem da reunião
do G20, em Milwaukee (EUA), entre 30 de setembro e 1º de outubro.
A estratégia brasileira combina a
firmeza do questionamento multilateral na OMC com a busca de uma saída
negociada direta, visando cessar os prejuízos ao setor produtivo nacional o
quanto antes.
Uma resposta à era do
protecionismo desmedido
O conflito tarifário entre Brasil
e Estados Unidos reflete um sintoma grave do cenário internacional: a
substituição das regras previsíveis do livre comércio por decisões
protecionistas e arbitrárias tomadas por grandes potências.
Para o Brasil, este episódio
deixa uma lição clara: a urgência de acelerar a diversificação de mercados
consumidores, agregar valor aos produtos nacionais e reduzir a vulnerabilidade
do país a decisões unilaterais tomadas por governos estrangeiros. Mais do que
uma disputa sobre alíquotas, o Brasil vai a Genebra para defender que o
comércio internacional não pode ser regido pelo arbítrio de uma única nação.

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