Dinalva Heloiza
O avanço acelerado da inteligência artificial e das plataformas digitais está redesenhando as indústrias criativas — mas não necessariamente em favor de quem cria. É o que revela o novo relatório da UNESCO, “Re|Shaping Policies for Creativity 2026” (Reformando as Políticas para a Criatividade), que projeta perdas globais de receita de até 24% para criadores de música e 21% para profissionais do audiovisual até 2028, em decorrência do impacto da IA generativa.
O documento, considerado um marco ao completar uma década de
monitoramento global, faz um apelo direto por políticas públicas mais robustas
e atualizadas para proteger artistas e profissionais da cultura em um cenário
de transformações tecnológicas profundas.
Segundo o Diretor-Geral da UNESCO, Khaled El-Enany, é urgente reformular os sistemas de apoio à criatividade para garantir que a inovação digital não aprofunde desigualdades já existentes.
Crescimento econômico, mas estruturas frágeis
As indústrias culturais e criativas são reconhecidas mundialmente como motores de crescimento econômico, coesão social e desenvolvimento sustentável. O comércio global de bens culturais, por exemplo, dobrou e alcançou US$ 254 bilhões em 2023, sendo que 46% das exportações vêm de países em desenvolvimento.
Mas o avanço não é homogêneo.
Enquanto 85% dos países incluem o setor cultural em seus
planos nacionais de desenvolvimento, apenas 56% estabeleceram metas culturais
específicas — revelando uma lacuna entre discurso e ação concreta. Além disso,
o financiamento público direto para a cultura permanece abaixo de 0,6% do
PIB global e segue em queda.
Há ainda uma barreira persistente à mobilidade artística:
96% dos países desenvolvidos apoiam a circulação de seus artistas para o
exterior, mas apenas 38% facilitam a entrada de profissionais vindos de países
em desenvolvimento. O fluxo cultural, portanto, ainda é desigual.
A divisão digital e o impacto da IA
A digitalização ampliou o acesso às ferramentas criativas e
ao público global. Hoje, 35% da renda dos criadores vem do ambiente digital
— quase o dobro dos 17% registrados em 2018.
Mas essa transformação traz instabilidade.
A concentração de mercado em poucas plataformas de
streaming, aliada a sistemas de curadoria opacos e algoritmos pouco
transparentes, tem marginalizado criadores menos conhecidos. A vulnerabilidade
à violação de propriedade intelectual também aumentou.
A desigualdade tecnológica aprofunda o abismo Norte-Sul:
enquanto 67% da população em países desenvolvidos possui competências digitais
essenciais, esse número cai para apenas 28% nos países em desenvolvimento.
Além disso, menos da metade dos países (48%) desenvolve
estatísticas para monitorar o consumo cultural digital — o que dificulta
respostas políticas eficazes.
Liberdade artística sob pressão
O relatório também acende um alerta preocupante sobre
liberdade de expressão e segurança dos criadores.
Apenas 61% dos países mantêm órgãos independentes de
monitoramento da liberdade artística. Em contextos de instabilidade política,
conflitos e deslocamentos forçados, artistas tornam-se ainda mais vulneráveis —
mas somente 37% dos países relatam iniciativas específicas para protegê-los.
A vigilância digital e o viés algorítmico surgem como novos
desafios, impactando diretamente a visibilidade e a autonomia criativa.
Gênero e inclusão: avanços e lacunas
Há sinais de progresso na liderança feminina em instituições
culturais nacionais — que passou de 31% em 2017 para 46% em 2024. No entanto,
as disparidades permanecem marcantes.
Nos países desenvolvidos, mulheres representam 64% das
lideranças culturais. Já nos países em desenvolvimento, esse número cai para
30%. O relatório aponta que muitas políticas públicas ainda posicionam as
mulheres prioritariamente como consumidoras de cultura, e não como criadoras e
líderes.
A resposta da UNESCO
Há mais de duas décadas, a UNESCO posiciona a cultura no centro
das políticas globais por meio da Convenção de 2005 sobre a Proteção e Promoção
da Diversidade das Expressões Culturais.
O novo relatório é a quarta edição da série que monitora a
implementação dessa Convenção. Publicado com o apoio do Governo da Suécia e da
Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, o documento
apresenta um panorama robusto: mais de 8.100 políticas e medidas culturais
já foram adotadas pelas Partes da Convenção para fortalecer o papel das
indústrias criativas no desenvolvimento sustentável.
Por meio do Fundo Internacional para a Diversidade
Cultural (FIDC), a Organização apoiou 164 projetos em 76 países do Sul
Global, abrangendo cinema, artes cênicas, artes visuais, design, música, edição
e mídias digitais.
Além disso, a UNESCO já auxiliou mais de 100 países na
criação ou reforma de políticas culturais, com foco na proteção socioeconômica
dos artistas, na transição digital dos setores criativos e no fortalecimento de
comunidades vulneráveis.
O relatório deixa uma mensagem clara: a criatividade continua sendo uma das maiores forças de transformação social e econômica do mundo — mas precisa de proteção, investimento e políticas públicas à altura dos desafios digitais.
Em um cenário em que algoritmos e inteligência artificial
redefinem o valor da produção cultural, o futuro da diversidade criativa
dependerá das decisões tomadas agora.
E a pergunta que fica é, o estado brasileiro no quesito formulação de políticas públicas, ou seja o Congresso Nacional está preparado para proteger
quem cria ideias no cenário da criatividade nacional?

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