quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Criadores podem perder até 24% da receita global até 2028, alerta novo relatório da UNESCO!

 

Dinalva Heloiza


O avanço acelerado da inteligência artificial e das plataformas digitais está redesenhando as indústrias criativas — mas não necessariamente em favor de quem cria. É o que revela o novo relatório da UNESCO, “Re|Shaping Policies for Creativity 2026” (Reformando as Políticas para a Criatividade), que projeta perdas globais de receita de até 24% para criadores de música e 21% para profissionais do audiovisual até 2028, em decorrência do impacto da IA generativa.

O documento, considerado um marco ao completar uma década de monitoramento global, faz um apelo direto por políticas públicas mais robustas e atualizadas para proteger artistas e profissionais da cultura em um cenário de transformações tecnológicas profundas.

Segundo o Diretor-Geral da UNESCO, Khaled El-Enany, é urgente reformular os sistemas de apoio à criatividade para garantir que a inovação digital não aprofunde desigualdades já existentes.

Crescimento econômico, mas estruturas frágeis

As indústrias culturais e criativas são reconhecidas mundialmente como motores de crescimento econômico, coesão social e desenvolvimento sustentável. O comércio global de bens culturais, por exemplo, dobrou e alcançou US$ 254 bilhões em 2023, sendo que 46% das exportações vêm de países em desenvolvimento.

Mas o avanço não é homogêneo.

Enquanto 85% dos países incluem o setor cultural em seus planos nacionais de desenvolvimento, apenas 56% estabeleceram metas culturais específicas — revelando uma lacuna entre discurso e ação concreta. Além disso, o financiamento público direto para a cultura permanece abaixo de 0,6% do PIB global e segue em queda.

Há ainda uma barreira persistente à mobilidade artística: 96% dos países desenvolvidos apoiam a circulação de seus artistas para o exterior, mas apenas 38% facilitam a entrada de profissionais vindos de países em desenvolvimento. O fluxo cultural, portanto, ainda é desigual.

A divisão digital e o impacto da IA

A digitalização ampliou o acesso às ferramentas criativas e ao público global. Hoje, 35% da renda dos criadores vem do ambiente digital — quase o dobro dos 17% registrados em 2018.

Mas essa transformação traz instabilidade.

A concentração de mercado em poucas plataformas de streaming, aliada a sistemas de curadoria opacos e algoritmos pouco transparentes, tem marginalizado criadores menos conhecidos. A vulnerabilidade à violação de propriedade intelectual também aumentou.

A desigualdade tecnológica aprofunda o abismo Norte-Sul: enquanto 67% da população em países desenvolvidos possui competências digitais essenciais, esse número cai para apenas 28% nos países em desenvolvimento.

Além disso, menos da metade dos países (48%) desenvolve estatísticas para monitorar o consumo cultural digital — o que dificulta respostas políticas eficazes.

Liberdade artística sob pressão

O relatório também acende um alerta preocupante sobre liberdade de expressão e segurança dos criadores.

Apenas 61% dos países mantêm órgãos independentes de monitoramento da liberdade artística. Em contextos de instabilidade política, conflitos e deslocamentos forçados, artistas tornam-se ainda mais vulneráveis — mas somente 37% dos países relatam iniciativas específicas para protegê-los.

A vigilância digital e o viés algorítmico surgem como novos desafios, impactando diretamente a visibilidade e a autonomia criativa.

Gênero e inclusão: avanços e lacunas

Há sinais de progresso na liderança feminina em instituições culturais nacionais — que passou de 31% em 2017 para 46% em 2024. No entanto, as disparidades permanecem marcantes.

Nos países desenvolvidos, mulheres representam 64% das lideranças culturais. Já nos países em desenvolvimento, esse número cai para 30%. O relatório aponta que muitas políticas públicas ainda posicionam as mulheres prioritariamente como consumidoras de cultura, e não como criadoras e líderes.

A resposta da UNESCO

Há mais de duas décadas, a UNESCO posiciona a cultura no centro das políticas globais por meio da Convenção de 2005 sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais.

O novo relatório é a quarta edição da série que monitora a implementação dessa Convenção. Publicado com o apoio do Governo da Suécia e da Agência Sueca de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, o documento apresenta um panorama robusto: mais de 8.100 políticas e medidas culturais já foram adotadas pelas Partes da Convenção para fortalecer o papel das indústrias criativas no desenvolvimento sustentável.

Por meio do Fundo Internacional para a Diversidade Cultural (FIDC), a Organização apoiou 164 projetos em 76 países do Sul Global, abrangendo cinema, artes cênicas, artes visuais, design, música, edição e mídias digitais.

Além disso, a UNESCO já auxiliou mais de 100 países na criação ou reforma de políticas culturais, com foco na proteção socioeconômica dos artistas, na transição digital dos setores criativos e no fortalecimento de comunidades vulneráveis.

O relatório deixa uma mensagem clara: a criatividade continua sendo uma das maiores forças de transformação social e econômica do mundo — mas precisa de proteção, investimento e políticas públicas à altura dos desafios digitais.

Em um cenário em que algoritmos e inteligência artificial redefinem o valor da produção cultural, o futuro da diversidade criativa dependerá das decisões tomadas agora.

E a pergunta que fica é, o estado brasileiro no quesito formulação de políticas públicas, ou seja o Congresso Nacional está preparado para proteger quem cria ideias no cenário da criatividade nacional?

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