Dinalva Heloiza
Há momentos na história de um país em que a escolha política deixa de ser apenas uma preferência ideológica e passa a ser um teste moral coletivo. Não se trata mais de simpatia, carisma ou identificação imediata com um projeto de poder, mas o mais importante, a consciência do eleitor em reconhecer os limites que não podem ser ultrapassados sem que a própria ideia de sociedade, civilidade e democracia comece a ruir.
O Brasil já experimentou, em um
passado recente, um tipo de condução política que não se limitou a erros
administrativos ou divergências legítimas de visão. O que se viu foi a
institucionalização de um método corrosivo e destrutivo: onde a desinformação foi
elevada à categoria de estratégia, o confronto e ódio permanente transformado
em linguagem de governo, a desqualificação da ciência e do conhecimento como
ferramenta deliberada de poder. Não foi apenas uma crise de gestão — foi também
uma crise de consciência coletiva.
Quando a mentira se torna rotina,
a verdade deixa de ser referência. Quando o ódio passa a organizar o discurso
público, a convivência se torna inviável. E quando a ignorância é celebrada, o
futuro de uma nação é comprometido em suas bases mais profundas. Esse tipo de
projeto não precisa declarar sua intenção de destruir — ele o faz lentamente,
ao corroer a confiança, fragilizar instituições e banalizar a violência
simbólica e concreta.
Nesse ambiente, direitos deixam
de ser garantias e passam a ser obstáculos. A dignidade humana se torna
negociável. Grupos historicamente vulneráveis voltam a ocupar o lugar de alvo,
e não de prioridade. A floresta vira recurso a ser explorado sem medida, a
ciência vira opinião, a educação vira ameaça. E, talvez o mais grave, a própria
ideia de verdade se dissolve em meio a versões fabricadas.
Mas há também outro caminho, esse
mesmo que nos encontramos hoje — e ele não é perfeito, nem isento de críticas. Mas,
é o caminho da reconstrução paciente, do fortalecimento institucional, da
retomada de políticas públicas que não operam a partir do ressentimento, mas da
responsabilidade social. Um caminho em que o Estado volta a ser instrumento de
inclusão, e não de exclusão; de mediação, e não de conflito permanente.
É nesse terreno que políticas
públicas ganham seu verdadeiro significado. Não como peças de propaganda, mas
como estruturas concretas que impactam vidas: no acesso à saúde, na valorização
da educação, na proteção ambiental, na redução das desigualdades. Essas são
escolhas que não geram manchetes explosivas, mas sustentam o tecido social de
forma silenciosa e o fortalece continuamente. A paz prevalece, e a civilidade
passa a tomar seu lugar de relevância.
Há, ainda, um elemento essencial
que diferencia esses dois momentos: o papel das instituições. Em um ambiente
democrático saudável, a justiça não serve a um grupo, a uma família ou a um
projeto pessoal de poder. Ela atua — ainda que com falhas e imperfeições — como
instrumento de equilíbrio, investigando e responsabilizando independente de
posição social ou influência política. Esse funcionamento é o que impede que o
país se transforme em território de impunidade seletiva.
Além disso, a posição atual do
Brasil em cenário internacional também reflete essa escolha interna. Uma nação
que respeita suas instituições, que preserva sua democracia e que busca
soluções coletivas volta a ser vista com credibilidade, investimentos contínuos
aportam em solo brasileiro. E lá fora, o Brasil é hoje um país respeitado e
amado, ao contrário do período -pária – que vivenciamos em contexto
internacional na gestão anterior. Hoje o diálogo substitui o isolamento, a
cooperação substitui o conflito vazio, e o país reassume um papel que vai além
de suas fronteiras.
Nada disso exige devoção cega ou
ausência de críticas ao governo. Ao contrário: a maturidade democrática
pressupõe vigilância constante, cobrança e participação ativa. Mas existe uma
diferença clara entre criticar dentro das regras do jogo democrático ou optar
por corroer o próprio tabuleiro.
O que está em jogo, portanto, não
é a defesa de um nome, mas a recusa de um método. Não é sobre entusiasmo, mas
sobre consciência. Não é sobre paixão, mas sobre responsabilidade histórica.
Porque há períodos em que uma
nação pode se dar ao luxo de errar escolhas. E há outros em que errar significa
abrir espaço para algo que, uma vez instalado, não se limita a governar — mas
passa a desmontar, peça por peça, tudo aquilo que sustenta a vida em comum.
E talvez o maior risco não seja o
retorno explícito desse tipo de projeto, mas o esquecimento de como ele opera.
A memória, nesse sentido, deixa de ser apenas lembrança e passa a ser um
instrumento de proteção.
O Brasil já sabe o que não pode
voltar a ser. E essa consciência, mais do que qualquer campanha ou discurso, é
o que define um futuro possível.
Há horas em que a urna não nos
pergunta quem nos encanta, mas se ainda sabemos distinguir civilização de
barbárie, civilização ou modelo de ódio. E essa é uma dessas horas.
Vote contra o golpismo, contra a
seita da violência, vote contra o entreguismo de nossa soberania nacional, contra
um modelo que se auto preserva na impunidade. Um modelo em que se corroem
instituições, envenenam a convivência e flertam com as trevas como quem flerta
com um brinquedo.
Um país sobrevive a governos
ruins, mas às vezes não sobrevive ao prazer que alguns políticos demonstram em destruir
tudo. Não estou lhes pedindo paixão; estou lhes implorando lucidez.
E lucidez é tudo que a nossa
sociedade necessita para sair do caos que tenta se instalar em nossas instituições,
e quando menos esperamos, ele está a governar nossa vidas!
Lucidez, eu te imploro!

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