Dinalva Heloiza
Vivemos a era da informação. Nunca a humanidade produziu tantos dados, tantas imagens, tantos sons e tantas formas de comunicação. Paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes do silêncio.
O silêncio, hoje, tornou-se um
artigo de luxo.
As cidades contemporâneas parecem
ter declarado guerra à serenidade. Buzinas incessantes, escapamentos
adulterados, veículos transformados em caixas de ressonância, equipamentos de
som em volume incompatível com a convivência coletiva, publicidade sonora,
aparelhos eletrônicos que disputam nossa atenção a cada segundo, notificações
que jamais cessam e uma trilha sonora permanente imposta ao espaço público
compõem aquilo que talvez seja uma das maiores epidemias silenciosas — ou
melhor, ruidosas — do século XXI.
É curioso perceber o quanto a poluição
sonora raramente ocupa o centro das discussões ambientais. Fala-se do ar, da
água, dos resíduos sólidos e das mudanças climáticas. Tudo isso é fundamental.
Mas existe outra forma de contaminação que penetra diretamente em nosso cérebro
sem que percebamos.
O ruído. Não apenas o ruído físico. Também o ruído emocional. O ruído cultural. O ruído informacional. Vivemos cercados por uma avalanche de estímulos que sequestram nossa atenção, reduzem nossa capacidade de contemplação e enfraquecem aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a escuta, a reflexão, a empatia e a sensibilidade.
A neurociência já demonstra que a
exposição contínua ao excesso de ruídos aumenta os níveis de cortisol, eleva o
estresse, interfere na qualidade do sono, compromete a memória, reduz a
concentração e favorece quadros de ansiedade, irritabilidade e doenças
cardiovasculares. Quando o cérebro permanece constantemente em estado de
alerta, ele deixa de encontrar os intervalos necessários para restaurar seu
equilíbrio.
Mas existe um efeito ainda mais profundo. O excesso de barulho anestesia nossa percepção. Quando tudo grita, nada mais comunica. Perdemos a capacidade de ouvir o canto dos pássaros, a voz tranquila de uma conversa, o vento atravessando as árvores, o próprio pensamento. Sem perceber, vamos desaprendendo o silêncio.
E muitas vezes é justamente no silêncio que nasce a criatividade, a espiritualidade, a consciência crítica e a intuição. As grandes descobertas da humanidade dificilmente surgiram em meio ao caos. Nasceram da observação, da contemplação e da capacidade de ouvir aquilo que o mundo moderno insiste em sufocar.
Infelizmente, muitas cidades brasileiras caminham na direção oposta. Em Goiânia, por exemplo, tornou-se comum encontrar veículos que transformam vias públicas em palcos particulares, equipamentos de som que ignoram completamente o direito coletivo ao descanso e uma banalização da agressão sonora que já parece ter sido naturalizada.
O problema não reside na música
enquanto manifestação artística, mas no ruído musical que há tempos vem sendo
produzido pela indústria sonora, e sem nenhuma responsabilidade crítica, ou
cultural.
Muito pelo contrário. Sabendo que a música é uma das mais belas expressões da inteligência humana. Ela cura. Conecta. Educa. Inspira. E constrói memórias afetivas. Claro quando acompanhada de harmonia e sonoridade.
A questão está na perda do
compromisso artístico em parte da produção cultural contemporânea, quando
determinados conteúdos passam a glorificar permanentemente o sofrimento – a
exemplo de alguns estilo “da dita sofrência” - uma apologia à violência simbólica, ao consumo
desenfreado, ao desrespeito às relações humanas e a convivência com
civilidade, em total banalização da arte. É então que a música se transforma em banalidade, e passa corromper a harmonia e a sonoridade dessa arte.
Toda arte comunica valores. Palavras possuem peso. Repetições moldam comportamentos. Aquilo que ouvimos diariamente participa da construção da nossa visão de mundo. Quando determinadas narrativas são reproduzidas milhões de vezes, elas deixam de ser apenas entretenimento e passam a influenciar emoções, expectativas e até formas de convivência.
Não se trata de censurar estilos musicais. Seria um enorme equívoco. Toda manifestação artística merece existir. O que precisa ser discutido é a responsabilidade cultural de quem produz, distribui e consome conteúdos que ocupam intensamente o espaço coletivo.
Da mesma forma, é preciso
refletir sobre o direito fundamental ao silêncio. O silêncio também é um bem público.
Ele protege idosos. Crianças. Pessoas com transtornos do espectro autista. Pacientes
hospitalizados. Estudantes. Profissionais que trabalham em casa. Animais
domésticos e silvestres.
Todos sofrem quando a cidade abdica de qualquer limite para o excesso de ruído. Talvez estejamos diante de uma questão que ultrapassa a educação individual. É um tema de saúde pública. É um tema ambiental. É um tema urbanístico. É um tema de civilidade cidadã.
Precisamos de políticas públicas
mais consistentes, fiscalização efetiva, campanhas educativas permanentes e
legislação capaz de equilibrar liberdade individual e o respeito coletivo.
A convivência democrática
pressupõe direitos, mas também deveres. Ninguém deveria ter o direito de impor
seu som ao descanso, ao trabalho, ao estudo ou à paz do outro. Civilização
também se mede pelo volume com que escolhemos viver.
Chega o momento de governos
municipais, estaduais e federais tratarem a poluição sonora com a mesma
seriedade dedicada a outras formas de degradação ambiental. Precisamos rever
limites, fortalecer a fiscalização, incentivar projetos urbanos que reduzam o
ruído e promover uma educação cidadã baseada no respeito aos espaços
compartilhados.
O futuro das cidades não depende
apenas de mais tecnologia. Depende de mais consciência.
Porque uma sociedade incapaz de
preservar o silêncio talvez também esteja perdendo a capacidade de ouvir seu próprio pulsar em humanidade.
E quando uma civilização deixa de
ouvir a si mesma, corre o risco de descobrir tarde demais que o verdadeiro caos
nunca esteve apenas do lado de fora.
Ele começou dentro de cada um de
nós, alimentado diariamente por uma epidemia invisível de sons que, pouco a
pouco, transformam a convivência em conflito, a sensibilidade em indiferença e
a paz em uma rara lembrança. Ainda há tempo de mudar esse rumo.
Mas será preciso, antes de tudo, reaprender
novamente o valor do silêncio. E este é muito caro, pra alguns de nós. E eu me
incluo neste grupo!

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