Dinalva Heloiza
Antes mesmo do nome,
antes da luz tocar meus olhos,
havia um coração me chamando
do lado de dentro do mundo.
Nove meses de silêncio e espera,
de conversas feitas em segredo,
mãos repousadas sobre o ventre,
sonhos costurados entre enjoos,
medos escondidos na madrugada
e uma coragem que só as mães conhecem.
Ela carregava em si
o peso doce do futuro.
E quando chegou o instante do parto,
a dor abriu caminhos
como rios rompendo pedras.
Seu corpo tremia entre lágrimas,
mas seus braços já sabiam me amar
antes mesmo de me tocar.
Então ouvi sua voz —
cansada, trêmula, infinita —
e naquele pequeno segundo
o universo inteiro ganhou colo.
Seus seios fartos alimentaram
não apenas minha fome,
mas minhas primeiras certezas:
a de que existia abrigo,
a de que o amor tinha cheiro,
temperatura, canção e silêncio.
Ela atravessou minhas febres,
meus choros sem tradução,
minhas noites assustadas.
Contava histórias para espantar monstros,
mesmo quando os monstros
moravam dentro dela também.
Na infância,
suas mãos ajeitavam meus cabelos
como quem organizava o próprio destino.
E cada conselho simples —
“olhe para os dois lados”,
“não fale com estranhos”,
“leve um casaco” —
era sua maneira delicada
de tentar proteger o mundo de mim
e a mim do mundo.
Então veio a adolescência.
As portas batidas.
Os silêncios longos.
As respostas atravessadas.
A vontade absurda de crescer
sem perceber que ainda precisava de colo.
E ela permanecia ali.
Preocupada com minhas amizades,
com minhas dores escondidas,
com o amor que poderia me ferir,
com os caminhos que eu escolheria
quando ela já não pudesse segurar minha mão.
Às vezes brigava.
Às vezes chorava escondido.
Às vezes fingia dureza
só para não me ver cair tão fundo.
Mas nenhuma distância
foi maior que sua vigília silenciosa.
Depois vieram as conquistas.
O primeiro trabalho.
Os sonhos ganhando endereço.
As vitórias pequenas
que para ela pareciam gigantes.
Ninguém comemorava tão bonito.
Ninguém se orgulhava tão inteiro.
E quando chegaram os fracassos —
porque eles sempre chegam —
foi novamente seu colo
que juntou os pedaços invisíveis.
Quando o amor me confundiu,
quando partiram meu coração,
quando a vida pareceu pesada demais,
ela me ensinou que recomeçar
também é uma forma de coragem.
E um dia,
quase sem perceber,
eu entendi o tamanho desse amor, e o quanto ele me construiu!
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