Unesco faz recomendação inédita para uso ético da neurotecnologia - Orientações entraram em vigor no dia 12 de novembro de 2025.
Dinalva Heloiza
A possibilidade de acessar, monitorar e até modificar a atividade do cérebro humano já não pertence mais ao campo da ficção científica. Presente em implantes cocleares, que restauram a audição, e em estimuladores cerebrais utilizados no tratamento de doenças como Parkinson e depressão, a neurotecnologia vem ganhando espaço em escala global, com dezenas de milhares de usuários em todo o mundo.
No entanto, à medida que essa tecnologia avança para além da
medicina — alcançando áreas como educação, mercado de trabalho, consumo e
entretenimento — cresce também a preocupação com seus impactos éticos, sociais
e legais. O acesso direto ao cérebro humano, às emoções, aos padrões de
comportamento e até à personalidade impõe desafios inéditos à proteção dos
direitos fundamentais.
Foi diante desse cenário que a Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aprovou, no dia 5 de novembro, a
primeira recomendação global sobre a ética da neurotecnologia, um marco
histórico que deverá orientar os 194 países-membros da organização, incluindo o
Brasil.
O documento entrou em vigor em 12 de novembro, ao final da
Conferência Geral da Unesco, realizada em Samarcanda, no Uzbequistão, e
estabelece o primeiro arcabouço normativo internacional dedicado exclusivamente
ao uso ético dessa tecnologia emergente.
Um alerta ético em tempos de avanço acelerado
Em entrevista à Agência Brasil, a diretora-geral adjunta de
Ciências Humanas e Sociais e Ciências Naturais da Unesco, Lídia Brito,
destacou que a recomendação nasce como uma resposta preventiva aos riscos potenciais
da neurotecnologia.
Segundo ela, o papel da Unesco é antecipar dilemas éticos
antes que os danos se tornem irreversíveis. Em um mundo marcado por avanços
tecnológicos rápidos e, muitas vezes, pouco regulados, a criação de princípios
éticos globais funciona como uma forma de mitigar riscos e orientar decisões
públicas e privadas.
A normativa reconhece que os países se encontram em
diferentes estágios de desenvolvimento e implementação da neurotecnologia. Por
isso, mais do que reagir a problemas já existentes, o documento busca criar um
referencial ético comum que permita antecipar usos ainda não plenamente
difundidos.
Neurodados: a nova fronteira da privacidade
Um dos pontos centrais da recomendação diz respeito à
proteção dos chamados neurodados — informações captadas direta ou
indiretamente a partir da atividade cerebral. Esses dados podem revelar estados
mentais, emoções, padrões cognitivos e até predisposições comportamentais, o
que os torna extremamente sensíveis.
A Unesco alerta para o risco de violações da privacidade
mental e para o uso indevido dessas informações em ambientes como o trabalho,
onde dispositivos poderiam ser utilizados para monitorar produtividade, atenção
ou estados emocionais de funcionários.
O documento insiste na necessidade de consentimento
prévio, livre e informado, além de total transparência sobre a coleta, o
armazenamento e o uso desses dados. Estados-membros são incentivados a
desenvolver marcos jurídicos robustos que considerem os dados neurais e os
dados capazes de inferir estados mentais como dados pessoais sensíveis,
sujeitos a proteção rigorosa.
Educação, crianças e limites éticos
Outro eixo fundamental da recomendação envolve o uso da
neurotecnologia na educação. Embora reconheça o potencial da tecnologia para
auxiliar alunos com dificuldades de aprendizagem, deficiências ou condições
cognitivas específicas, o documento é enfático ao desaconselhar o uso não
terapêutico em crianças e adolescentes com desenvolvimento cognitivo pleno.
Segundo a Unesco, cérebros em desenvolvimento são
especialmente vulneráveis a interferências tecnológicas. Por isso, qualquer
aplicação educacional deve ser baseada em evidências científicas, previamente
avaliada, limitada ao estritamente necessário e alinhada a objetivos
pedagógicos legítimos, sempre respeitando os direitos humanos, a saúde, o
bem-estar e a não discriminação.
Os países são estimulados a criar diretrizes nacionais
claras para regular esse tipo de uso, garantindo que a inovação não se
sobreponha à proteção integral da infância e da juventude.
Consumo, vício e manipulação comportamental
A recomendação também lança luz sobre o uso da
neurotecnologia em produtos voltados ao consumidor, como neurojogos, jogos de
azar e plataformas digitais que exploram o sistema de recompensa cerebral,
especialmente a dopamina.
A Unesco alerta para o risco de indução ao uso compulsivo,
ao vício e à exploração da vulnerabilidade física, mental e emocional dos
usuários, em especial crianças e adolescentes. Entre as diretrizes propostas
estão a exigência de rotulagem clara dos riscos, divulgação dos efeitos
no sistema nervoso e a adoção de padrões rigorosos de design, segurança,
privacidade e adequação etária.
O documento reforça que o avanço tecnológico não pode
legitimar práticas que comprometam a autonomia individual ou promovam o consumo
prejudicial.
A linha vermelha: manipulação durante o sono
Talvez um dos pontos mais sensíveis da recomendação seja a proibição
explícita do uso de neurotecnologia para influenciar indivíduos durante o sono,
incluindo práticas como marketing em sonhos ou estímulos direcionados a estados
inconscientes.
Segundo a Unesco, aplicações comerciais, políticas ou
publicitárias que utilizem dados neurais — diretos ou indiretos — para
manipular indivíduos enquanto dormem devem ser estritamente vedadas. A
organização defende mecanismos robustos de supervisão para garantir que
pesquisas e aplicações priorizem o bem-estar, a privacidade e a autonomia,
considerando inclusive os impactos psicológicos e cognitivos de longo prazo.
Inovação com responsabilidade
Apesar do tom de alerta, a Unesco deixa claro que a
recomendação não tem caráter proibitivo. Trata-se de uma orientação ética, não
obrigatória, que reconhece os inúmeros benefícios da neurotecnologia, inclusive
para crianças e adolescentes, quando utilizada de forma responsável.
O objetivo central é assegurar que o desenvolvimento
tecnológico caminhe lado a lado com os direitos humanos, a dignidade, a
integridade mental e a justiça social. Em um mundo onde a fronteira entre o
humano e o tecnológico se torna cada vez mais tênue, a ética deixa de ser um
detalhe — e passa a ser condição essencial para o futuro.

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